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30 de Dezembro • 21:45 • CINEMA
O DESESPERO DE VERONIKA VOSS
Realização: Rainer Werner Fassbinder
Argumento: Peter Märthesheimer, Pea Fröhlich
Actores: Rosel Zech, Hilmar Thate, Cornelia Froboess, Annemarie Düringer, Doris Schade, Armin Mueller-Stahl, Johanna Hofer, Rudolf Platte, Eric Schumann
Montagem: Juliane Lorenz
Música: Peer Raben
Produção: Laura-Film / Tango-Film / Rialto-Film / Trio-Film / Maran-Film
Género: Ficção
Classificação: M/16
Alemanha, 1981
Preto e branco, 104 min, DVD
AUDITÓRIO DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE BARCELOS
Sinopse
Inspirado pelo destino da estrela Sybille Schmitz do estúdio alemão da Ufa, Fassbinder narra uma história sombria do pós-guerra: a atriz Veronika Voss, viciada em drogas, não consegue ter o mesmo sucesso que no passado. Ela desespera e, enquanto se ouve no rádio a benção de páscoa do papa, ela comete suicídio. Neste segundo filme da sua trilogia sobre os anos cinquenta, Fassbinder utiliza de modo soberano os elementos visuais do antigo melodrama dos estúdios da Ufa.
Crítica, por Hans Günther Pflaum
Veronika Voss mora no consultório de uma estranha médica. O seu novo amigo descobre que a actriz é dependente de drogas e que a médica lhe fornece morfina. Junto com a sua amiga Henriette, o jornalista começa a investigar esse território desconhecido. Aparentemente, a Secretaria de Saúde Pública sabe do tráfico praticado pela médica que enriquece à custa de pacientes viciados, mas não toma nenhuma atitude. A amiga de Krohn é assassinada. Ele chama a polícia, mas nada pode provar.
Veronika Voss tenta, sem sucesso, um “comeback” interpretando um pequeno papel. A médica quer agora livrar-se de Veronika, pois o jornalista poderá acabar por encontrar provas com as suas investigações. Com o pretexto de que a atriz estaria de partida para Hollywood, prepara-se uma grande festa de despedida para Veronika, após a qual, a médica fecha a sua vítima viciada no quarto, sem morfina. Desesperada, Veronika suicida-se com soníferos num domingo de Páscoa.
O DESESPERO DE VERONIKA VOSS foi produzido por Fassbinder como parte de uma trilogia sobre a República Federal da Alemanha do final dos anos 50. O primeiro filme dessa trilogia é O CASAMENTO DE MARIA BRAUN e o último, LOLA, realizado antes de VERONIKA VOSS.
VERONIKA VOSS conta uma história que contrasta com as histórias de sucesso das heroínas Maria Braun e Lola. Veronika Voss não consegue integrar-se no processo da reconstrução e, em vez de se adaptar, apega-se aos sonhos do passado. E são essas lembranças que se transformarão num obstáculo instransponível para o seu êxito no presente. Assim, ela refugia-se nos seus anos de carreira no cinema do Terceiro Reich, quando trabalhava para a empresa de produção cinematográfica “Ufa”, dirigida pelos nazis. Aliás, “Ufa” é uma palavra-chave para O DESESPERO DE VERONIKA VOSS. Outra palavra-chave é “Treblinka”, o campo de concentração. O filme também mostra um velho negociante de antiguidades, um sobrevivente do campo de concentração, que não consegue lidar com as lembranças do passado e é viciado em morfina. Quando a médica se nega a fornecer-lhe a droga, ele comete suicídio juntamente com a esposa.
“Fassbinder erige um monumento aos favorecidos do antigo sistema que não conseguem adaptar-se (o que é um ponto a seu favor), como Veronika e as vítimas, destruídas a tal ponto, que se tornam incapazes de continuar a viver. O seu ódio volta-se contra o novo cartel de poder que fornece à sociedade as drogas, que ela (suposta ou realmente) precisa. O jornalista (o detective deste filme), que incorpora o sistema democrático, não tem a mínima hipótese contra esse complô.” (Wilhelm Roth, em: Rainer Werner Fassbinder, Hanser Verlag)
Fassbinder faz uma reflexão sobre o passado das suas personagens, utilizando, inclusive, recursos estilísticos. A encenação aproxima-se intencionalmente do estilo dos melodramas da Ufa, aos quais a fictícia heroína do filme deve o seu antigo sucesso. No entanto, a história não é uma simples ficção, pois o argumento baseia-se no destino da autêntica diva da Ufa – a atriz Sibylle Schmitz. O DESESPERO DE VERONIKA VOSS – ao lado de NUM ANO COM 13 LUAS – é o filme mais sombrio, mais desesperado e mais pessimista de Fassbinder. “De tudo o que, provavelmente, atemoriza um grande número de pessoas, espero, que no final, o filme também consiga sensibilizá-las para o que é a história alemã. Isto é necessário e imprescindível. Pois, se isto que é a história alemã, for reprimido de novo e de novo, bem lá no fundo, alguma coisa começará a rumorejar novamente.” (Fassbinder)
É impressionante a frequência com que Fassbinder usou nomes de mulheres nos títulos dos seus filmes. O cineasta esclarece esse facto com a sua convicção “de que, ao contrário do que se pensa, as mulheres têm muito mais liberdade nesta sociedade. Os homens são mais obrigados a desempenhar papéis que lhes são impostos, enquanto as mulheres têm muito mais possibilidades de evadir-se.” Porém, a evasão de Veronika Voss termina em morte. O mundo em que ela se move, perdeu o prumo. Fassbinder mostra isto de forma bastante concreta, quando (assim como Carol Reed em DER DRITTE MANN) inclina a câmara, fazendo com que as linhas verticais pareçam oblíquas. Com a iluminação, o realizador age de forma diferente. Neste filme, a escuridão sempre emana um certo calor; o perigo parece vir da claridade. “Onde surge claridade, onde se pode perceber de verdade, ali é perigoso, ou desconfortável, ou repugnante.” E é nisto que se concentra DIE SEHNSUCHT DER VERONIKA VOSS: em lançar luz na escuridão. E, para Fassbinder, essa escuridão sempre foi: a história alemã.
Novembro 2009